6 em Autoconhecimento/ Convidadas no dia 02.08.2017

Quem você é, quem você quer ser e o quanto você deixa os outros ditarem isso

Estou no mercado de trabalho desde bem nova, coisas de quem cresceu sem mesada. Hoje, do alto dos meus 32 anos, um diploma na gaveta, uma carreira promissora abandonada, uma outra construída do zero e um contrato social com meu nome, consigo enxergar algumas coisas que me deixam triste, mas ao mesmo tempo me movem.

Ser mulher é cruel. Desde que nascemos aprendemos que devemos: ser bonita, falar manso, não ser uma presença forte, ouvir mais do que dar opinião, aceitar e, ainda, agradecer. Impossível aplicar cada um desses conceitos apenas no âmbito em que o recebemos: ser bonita nos eventos, falar manso com pai…a gente aplica no geral, é muita regra, não tem como separar!!!

E vou falar sobre o que já vi de impacto disso na nossa presença no mercado de trabalho.

Quando menos se percebe, estamos na nossa primeira entrevista de emprego, suando frio, pensando se temos capacidade de passar. Passamos. Mas por pura sorte, obviamente. Trabalhamos duro, mais que todos, para provar que merecemos a vaga, afinal a seleção não conta (foi sorte, lembra?). Aparece um cargo maior. Não nos candidatamos, não estamos preparadas. Quem entra é o moço da mesa ao lado: metade do seu conhecimento, uma fração do seu comprometimento e você ainda acredita que ele é melhor. Olha como ele fala alto, se impõe, chega chegando mesmo de camiseta de banda, quando você está aí, de cinta, tailleur e o salto alto, tentando parecer poderosa. Ou de tênis e camiseta de banda igual ele, tentando parecer poderosa.

Ele tem o cargo maior, mas vivemos consertando as besteiras que ele faz. Jamais teríamos a capacidade de lidar com esse cargo, é incrível a chance de tê-lo ali, filtrando toda a dureza do dia a dia enquanto fazemos o trabalho sendo invisíveis.

Passam-se anos até que se perceba que somos capazes, sim. Que ele só está ali pois foi criado desde pequeno para acreditar que se lhe oferecem um cargo, ele tem poder para aceitar. Daí tentamos virar o jogo, mostrar nossa inteligência e tudo o que já fizemos, gritamos, berramos. E o mundo nos qualifica como frias, levianas, sem compaixão. E, em resposta, a gente rala. Precisamos provar que podemos, sim, se nossos títulos, textos, planilhas e apresentações não conseguem falar por si só então a gente dá o sangue. Deixamos a Yoga de lado, a família, a viagem, as férias.

Depois de anos disso eles aceitam que somos esforçadas. Capazes? Não, esforçadas.

Pesquisas, muitas, mostram que as mulheres são mais reconhecidas no mercado pelo seu esforço do que pela sua inteligência. Isso mostra o que esperam da gente. Já a nossa atuação no mercado mostra o que aceitamos que mudassem na gente.

Hoje eu estou num caminho de aceitação e desconstrução muito intenso. A cada dia é uma olhada no espelho, uma inspiração profunda e uma autoafirmação de que posso sim. Eu mereço estar aqui, eu mereço mais até.

Não é quem liga pro escritório e só aceita falar com meu sócio quem define quem eu sou. Essa pessoa não pode ter o poder de me fazer repensar meu trabalho. Não posso deixar que isso me faça acreditar que sou pouco competente e que preciso me dedicar mais pra ser reconhecida. Eu não preciso levantar a bandeira de que fui uma fisioterapeuta maravilhosa e que são 9 anos na Logística e Comex pra chegar até aqui. Não preciso convencer com argumentos, meu cargo, meus números e meu cartão de apresentação falam por si só.  Se alguém não acredita, é essa pessoa que está errada. Ela deve mudar, não eu.

Seja sua escolha ser mãe em tempo integral, ser executiva fodona, ser faxineira ou empresária, a decisão de quanto você vai dedicar da sua vida a isso é totalmente sua. Há um lugar sob o sol para cada uma de nós e ninguém pode ditar o que você deve considerar sucesso, quanto se sacrificar, se deve mudar ou se deve desistir.

A escolha é sua. A caminhada também. A vitória, bom eu acho que nem preciso dizer.

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6 Comentários

  • RESPONDER
    Milena
    02.08.2017 às 14:31

    Você falou tudo Marcela! Já passou da hora de pararmos de nos importar com que os outros acham de nós!

    • RESPONDER
      Marcela de Vasconcellos
      03.08.2017 às 6:21

      Milrna, muito obrigada pelo comentário.
      Já passou mesmo da hora e a gente precisa se apoiar nessa mudança pois ela não é fácil.

  • RESPONDER
    Sabrina
    02.08.2017 às 16:58

    Ótimo texto. Bem isso mesmo que você falou.

    • RESPONDER
      Marcela de Vasconcellos
      03.08.2017 às 6:22

      Obtigada.

      Espero que ajude alguem a sentir o que eu sinto lendo ele (sim, eu leio meu próprio texto pra tomar umas doses de coragem)

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    Jocimara Patrício
    03.08.2017 às 5:42

    Que texto! Muito obrigada por ele, de verdade, eu estava precisando muito ler algo assim pra tirar um pouco a nuvem do “não sou capaz” da minha cabeça.

    • RESPONDER
      Marcela de Vasconcellos
      03.08.2017 às 13:49

      Oh, mulher. Você é capaz sim, eu não te conheço, não sei o que você faz ou quer fazer mas eu sei que você é capaz.
      Nenhuma mulher nesse mundo nasceu sem habilidades, a gente só é criada acreditando que somos fracas e que devemos nos calar.

      Espero que essas palavras fiquem com você, que te ajudem a sem manter firme.

      Beijos

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