2 em Comportamento/ Convidadas/ Juliana Ali/ maternidade no dia 24.07.2017

Com amor, Ju: Atípico

Semana passada dei de cara com duas notícias que me chamaram a atenção. Uma boa e uma ruim, a meu ver.

Qual você quer primeiro, como diz o cliché? Bom, vou começar com a ruim, assim meu texto termina feliz.

Rolou uma treta entre duas mulheres, porque o filho de uma foi lá e pegou o brinquedo da outra (sim, você leu certo, da outra mulher, adulta mesmo). E não podia pegar. Até aqui, grande coisa. Não é notícia boa nem ruim, TODAS as mães de criança pequena do planeta Terra têm que tirar algo da mão do filho todo santo dia – de objetos da casa alheia até bituca de cigarro que a criatura pegou na rua.

Acontece que, no caso em questão, a mãe da criança mandou mensagem malcriada para a dona do brinquedo, que respondeu mais malcriada ainda, e deu-se a confusão. Bom, o que vimos aí foram duas adultas com baixíssimo autocontrole. Infelizmente, isto também não me surpreende, o que mais vejo é adulto sem autocontrole nenhum. Vida que segue e ambas completamente erradas na situação, quero deixar claro. 

Mas o que me surpreendeu mesmo, negativamente, não tem a ver com as mães nem com a criança, e sim com as pessoas que leram a briga e resolveram opinar. Dizendo coisas como: “Mãe que não sabe colocar limite, dá nisso!”, “Criança mal educada, se fosse comigo eu batia pra aprender!”, “Detesto criança que mexe em tudo, na minha casa não entra, certa está a outra!”. Ou seja, noto que temos realmente uma sociedade com tolerância baixíssima em relação à crianças e uma falta de empatia impressionante em geral.

Se é assim que galera lida com uma criança “normal”, como vão lidar com MEU FILHO, então?

O que me leva á segunda notícia que queria contar, a boa. Mês que vem o Netflix vai lançar uma série nova chamada Atypical, sobre um adolescente que está no espectro autista. Fiquei maravilhada quando vi o trailer. Sabe por que? Porque meu filho mais velho, o Teodoro, que fará nove anos justamente no mesmo mês em que a série estréia, está no espectro autista.

Uma pessoa dentro do espectro autista não sabe expressar muito bem o que quer nem o que sente. Por isso, na infância, é muito comum que, ao querer algo, simplesmente pegue. Arranque da mão de outra criança, por exemplo. Pegue na casa dos outros sem pedir. Quando sente algo, muitas vezes começa a gritar, fica nervoso e por isso explode. Muitos confundem os autistas com crianças mal educadas, que têm mães “permissivas” e “que não impõem limites”.

Pois é. Pelo trailer, o menino do filme parece ser bem o tipo do Teodoro. Teo é um autista bem no início do espectro, que seria o autista que antes chamavam de “asperger”, um termo que vem sendo substituído. Enquanto é extremamente inteligente (Teodoro aprendeu a ler sozinho aos dois anos, e hoje é fluente em inglês, ninguém ensinou) e carinhoso, tem grande dificuldade social. Não percebe ironia. Nem brincadeira. Nem sinais sutis. Se assusta com coisas triviais, como sons, texturas de roupas, certas comidas, no caso do Teo, até certas flores. Mas é uma pessoa absolutamente funcional, deliciosa, doce, esperta e delicada, como todos os autistas.

Só que é DIFERENTE. Atípico. E todo mundo nota isso. Não é algo imperceptível. E as pessoas não sabem o que tem ali de diferente, mas sentem que tem algo.

Por isso a série foi uma notícia boa para mim. Como se, de algum jeito, mesmo que só um pouco, um Teodoro do mundo ganhasse uma visibilidade, uma voz, ou todos os Teodoros do mundo ganhassem. Como se os Teos se apresentassem um pouco para vocês, “oi, existimos, e somos muitos”. Estima-se que 1 a cada dez meninos estejam no espectro autista. Somos muitos – muitos filhos e muitas mães.

A maternidade é um desafio indescritível. Ser mãe de um filho atípico é mil vezes mais desafiador.

Por isso me dói ver que temos ainda uma sociedade que, em grande parte, recebe os novos humanos que chegam com tanta intolerância. Os que vão crescer e, depois, tomar conta do mundo. Serão os donos do mundo. No nosso lugar.

E os atípicos? Os autistas. Os que têm síndrome de Down. Os gays. Os trans. Como você quer receber essas crianças? Como quer receber TODAS as crianças?

A resposta depende de como você quer que seja o SEU mundo daqui pra frente.

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2 Comentários

  • RESPONDER
    Julia
    25.07.2017 às 8:26

    Adoro seus textos!

  • RESPONDER
    Mila
    28.07.2017 às 12:31

    Tenho que discordar de um ponto: a dona do colecionável (sim, por mais que seja considerado por muitos como um brinquedo, esse personagem é um artigo de colecionador, feito em quantidade limitadíssima e super frágil por sinal) não é um brinquedo para criança mexer…
    Claro, todo mundo sabe que crianças se interessam por variados objetos, mas essa mãe foi extremamente grosseira, mal educada e sem limites…só porque o filho dela quer então ele pode mexer?
    A mãe não deveria nem questionar o fato da menina não ter deixado o filho dela brincar com o objeto…

    Na minha casa mesmo há um tabuleiro de xadrez raro com objetos super delicados do Star Wars…o que aconteceu? Uma prima minha foi na minha casa, e, enquanto eu estava na cozinha preparando um lanche, os filhos gêmeos dela pegaram as peças e começaram a bater fingindo uma luta…o que aconteceu? Quando eles foram embora eu amarguei um prejuízo altíssimo, fora a tristeza de ver quebradas as peças que foram tão difíceis e caras de obter…ficou por isso mesmo, claro…eu jamais falaria algo com ela, embora ache ABSURDO que ela não tenha falado em momento algum pra eles não saírem mexendo em tudo que viam pela frente…
    Falei só dela porque o marido dela não estava na ocasião, caso contrário, eu diria que é absurdo AMBOS não imporem limites aos filhos.

    Algumas mães têm que entender que seus filhos não são donos de tudo nem têm liberdade pra fazer o que bem entenderem…uma criança assim que está acostumada a não ter nada negado infelizmente vai virar um adulto egocêntrico e difícil de conviver.

    Quero deixar bem claro que entendo perfeitamente que crianças se interessam por objetos variados e no quanto deve ser difícil para os pais controlarem, mas não concordo em menosprezarem o objeto em questão e o zelo da dona em preservar um artigo com fundo sentimental. Temos que aprender a respeitar o espaço alheio, e essa mãe definitivamente não sabe o que é isso.

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