0 em Comportamento/ crônicas no dia 21.06.2017

A carta que nunca mandei pra você…

Era dia 19 de novembro de 2015 e eu não tinha a coragem que tenho hoje. 

Na verdade tinha a coragem de me jogar, de sentir, mas não de falar e por isso guardei esse email no rascunho. Email que não tive coragem de clicar no enviar. Limpando meu correio eletrônico por esses dias esbarrei nessa carta,  viajei no tempo e me deixei emocionar. 

“Oi lindo!

Hoje é a primeira vez que eu acordei querendo me encorajar, querendo olhar no espelho e falar: Se joga, garota! Vai fundo, pára de pensar! Larga esse medo e abre mão de tentar entender. Diz, diz em voz alta o que você sente. Admite, pelo menos pra você mesma, o que está tão óbvio para quem vê no seu olhar.

É difícil admitir que no meu peito já tem saudade, já tem vontade e já tem doçura. Está cedo, não era a intenção, simplesmente aconteceu e apesar de não planejado, eu criei um espaço pra você. Que audácia a minha, que gesto de loucura fazer isso mesmo sabendo que você não vai ficar por muito tempo. Mesmo sabendo que eu sou só uma curva no seu rio que flui provavelmente para um lugar tão distante onde os seus sonhos te esperam.

É paradoxal o que eu sinto. Quero muito que você chegue no seu destino final, mesmo sabendo que esse momento provavelmente será a nossa linha de chegada. Onde eu vou ter que me preparar para a corrida seguinte, onde terei que correr sozinha mesmo achando tão gostoso correr com você.

A verdade é que eu queria poder te oferecer tudo, mas não tenho nada. Comigo não há nada do que você procura e eu pessoalmente nem sei o que estou buscando.

Hoje, quando meu dia começou, você me falou para eu ler a letra de uma música. A verdade é que essa atitude tão simples culminou numa difícil interpretação de texto. Se transformou em uma batalha interna de diferentes pontos de vista. Parte de mim olhou com o coração e se prendeu ao melhor dos otimismos, porque no fundo nada é realmente em vão, e de fato parece que tem um lado seu que é meu, ainda que sem intenção. A outra parte deu ouvido ao ato de auto preservação da minha razão, buscando entender que você vê tantas coisas boas em mim quanto eu vejo em você, só isso já era o suficiente para configurar um gesto de carinho. De alguém que tantas vezes é mais frio e que se eu piscar fica distante.

Eu vejo tanta coisa em você. E não falo do que todo mundo vê, porque isso não justificaria tantas palavras profundas. Eu posso estar enganada, mas eu acho que vejo a sua alma, que apesar de angustiada, me traz calma.

Ainda que tudo acabe amanhã. Ainda que esse rio se parta em diferentes afluentes, que por ventura possam me separar de você antes da sua partida, eu acho que o que eu vi aqui foi um encontro de almas antigas. Um reencontro ou um reconhecimento, algo que talvez explicasse o fato de você ter dito gostar de mim antes de me conhecer.

Eu realmente vejo muita coisa em você.

Escolhi o silencio em nome de apostar no novo sem pressão ou razão. Você tem essa característica fantástica que eu invejo com cada célula do meu corpo. A capacidade de deixar as coisas tomarem um curso natural, sem pré conceitos ou expectativas.

Eu queria ser como você.

Apesar da vontade súbita que me acometeu nessa manhã eu desisti de tal ato de bravura de te escrever. Falei apenas pra mim, baixinho, aquilo que tenho medo de dizer pra você.

Não porque eu não seja uma mulher corajosa, não por achar que tem que partir de você, mas porque nosso acordo velado é outro. É de viver o aqui, o agora, o hoje. Sem planos, só deixando acontecer. Até o dia em que não teremos mais como seguir, nós sabemos que vai chegar, mas preferimos apenas fingir.

Nossa ousadia nos comprou um pouco de tempo, esse tempo é o que eu quero de você. 

Essa é a verdade que me falta coragem pra dizer. Não quero rótulos, não preciso dizer o que sinto, até porque ainda não sei exatamente, mas eu quero usar esse tempo da melhor forma pra nós. Que romantismo clichê o meu, eu sei.

Talvez eu seja apenas uma doida varrida em vias de cometer um suicídio emocional. Uma louca que pretende mergulhar de cabeça numa história com prazo de validade pré estabelecido, mas se esse encontro for de almas eu só vou pensar naquela velha máxima: tudo vale a pena quando ela não é pequena. 

Eu não sei se será um romance de Reveillon ou mesmo de carnaval, eu só sei que teremos uma história de verão. Nela as férias no mar de cor tão clara vão refletir a cor dos seus olhos, que tentam me falar o que você não me diz.

Eu peço sabedoria para fazer a tradução correta, a interpretação certa de todo gesto, sorriso ou abraço. Seus olhos me dão informações desencontradas, meu corpo e mente também. No final sigo sem nenhuma informação privilegiada. Enfrentando aquela velha problemática da escola: a interpretação.

De certo eu só sei que eu quero você, no tempo que você tem.  Não importa como, quando ou mesmo em qual contexto, eu só quero o que me faz bem.

No fim você poderá ser juiz de tudo, mas essa verdade você não vai poder provar. No fundo eu só quero fazer pra você o tanto que você me faz bem.

O futuro ao universo pertence, longe de mim querer definir sentenças, só espero para sempre ver em você o que você vê hoje em mim.”

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Há exatamente um ano e cinco meses essas palavras dominavam o meu coração. Chorei na época quando as escrevi, chorei hoje quando as li. Lágrimas por motivos distintos, se antes era angústia por não conseguir falar o que sentia, hoje eu nem saberia explicar.

A gente entende tão pouco dos cursos e percursos da vida. Olhando essa carta vi que antes tinha medo de coisas que hoje acho bobas, como dizer o que eu sentia. Também notei que já tinha um entendimento claro dos riscos que corria, eu já sabia que iria ficar tudo bem independente do que ocorreria.

O mais curioso é que tanta preocupação com a data de partida dele foi à toa. Precisei ir embora “de nós dois” antes. Tanta preocupação com distância, ele parou aqui tão perto. Tanto medo de não saber o que ele sentia, no final ele me disse. A moral da história é que a maioria das minhas preocupações foram em vão. Achei isso engraçado, deve ter sido assim em vários momentos da minha vida, com várias histórias em vários contextos.

Quantas angústias nos parecem grandes na hora e depois não mais quando passam? Engraçado como nos tornamos pessoas mais seguras com o tempo. Hoje eu não teria medo de falar o que penso e sinto, naquela época? morria!

Eu aceitei que o amaria sem nunca ouvir de volta aquelas 3 palavras de 7 letras, impressionante que foi justamente ele que as falou pra mim. Nos desencontramos, mas mesmo no silêncio da não conversa gosto de ver que a vida caminhou para que realizássemos muitos dos sonhos individuais mencionados naquele sofá. 

Eu me vi obrigada a abrir mão da corrida no meio da maratona, mas sei o tanto que fiquei na torcida esperando as notícias da linha de chegada. Comemorei sozinha a vitória dele, agradeci internamente a minha também. No entanto não muda que as vezes eu sinto saudade, até mesmo dos surtos de criatividade. Se alguém me incentivou a sair da superficialidade no momento em que eu pouco conseguia ver, esse alguém foi ele. Por isso eu já agradeci. 

Eu, que no texto estava perdida, sem saber ao certo o que buscava, me encontrei. Hoje enxergo no espelho muito da capacidade sobre a qual ele falava. Tempo é mesmo um conceito superestimado, as vezes as menores das relações conseguem ser engrenagem crucial num processo de mudança interna. 

Nunca saberei se ele é feliz, mas vou torcer sempre pra que seja. Nunca vou saber qual teria sido o melhor desfecho pra gente, mas vou sempre agradecer pela parte dele na minha história.

É curioso reler textos antigos e revisitar aprendizados, a vida muda, mas os sentimentos ficam intactos nas palavras que juntas foram combinadas. Dá até aquela tal de saudade.

———————————– Esse texto pertence a tag de crônicas do blog ———————————–

Conforme contamos aqui, a tag de crônicas não tem nenhuma obrigação de refletir histórias verdadeiras, nossas ou recentes. Ela é inspirada em sentimentos reais e muitas vezes floreada com a imaginação. Hoje a história contada é de outra pessoa, mas poderia ser de muitas pessoas mais.

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