8 em Autoconhecimento/ Autoestima/ Futi em NYC no dia 18.04.2017

Tenho sotaque mesmo, e daí?

Meus pais me matricularam em cursos de inglês desde bem novinha. Começou com aulas de atividades, para aprender o básico do básico quando eu tinha uns 5 anos. Depois fui evoluindo para cursos que estimulavam a leitura e a escrita, aprendendo gramática, tempo verbal, além de estender o vocabulário, claro. Até que chegou uma hora que começou a conversação e foi aí que eu descobri que eu tinha um bloqueio. Eu ODIAVA essa parte.

Não gostava de conversar em inglês (ou qualquer outra língua, na verdade) por alguns motivos: não queria errar alguma concordância, medo de não entender e não ser entendida, medo de errar a pronúncia, enfim, uma série de limitações que eu mesmo me impus sem motivo algum. E imaginem eu, brasileira que nunca tinha morado fora do país, querendo falar perfeitamente como uma pessoa que nasceu nos Estados Unidos?

Quando eu era mais nova eu lia livros e mais livros em inglês e em voz alta, justamente para aperfeiçoar o meu sotaque. De certa forma eu acho que isso foi ótimo, minha pronúncia é até bem legal, mas mesmo assim, quando chegava a hora de me comunicar mesmo, eu travava. Eu me cobrava mais do que deveria e isso refletia quando eu viajava. Eu quase nunca me comunicava além do básico “excuse me, how much, where is”, quando a conversa ia além disso eu já dava um jeito de não deixar ir além e botar quem quer que estivesse comigo na frente. Sim, amigas, eu me anulava e deixava de me comunicar por medo.

Lembro uma vez eu elogiando uma amiga porque achava que ela falava muito bem, até que ela me falou algo que eu nunca esqueci: “não falo, não, erro pra caramba e muitas vezes só descubro que errei depois que já falei. Mas se no fim eu entendo e me entendem é isso que importa”. Na época eu achei ela muito corajosa e ousada por pensar dessa forma. Poxa, quem dera eu conseguisse me desinibir, tirar essas besteiras da cabeça e tentar me comunicar sem medo de erros ou pronúncias perfeitas.

Eu sei que tenho sotaque, mas as pessoas me entendem suficientemente bem!

Até que a vida vem e meio que te obriga a desembuchar, né? No meu caso, eu precisei morar aqui e passar a me virar sozinha e em inglês para começar a trabalhar o desapego de falar certo e fluente e sem sotaque para começar a me soltar e me sentir segura até mesmo para errar ou dizer que não entendi. Eu precisava me comunicar, eu precisava resolver coisas e, em menos de um mês, eu descobri que por mais que digam que novaiorquinos são frios e fechados, a história não é bem essa porque muita gente gosta de puxar papo.

No início foi um horror para uma pessoa que sempre teve medo de não entender, não ser entendida e não conseguir se comunicar bem. A frase que eu mais usava era “excuse me?” ou “sorry”, a segunda frase “can you repeat please?” Eu não conseguia entender quase NADA de primeira, o que foi um baque para meu orgulho mas um baita aprendizado também. Eu tive que aceitar que eu falo bem mas não sou totalmente fluente, que eu ainda erro muita coisa, que eu empaco e preciso de ajuda e, de certa forma, também tive que aceitar que a forma que eu me comunico entrega o meu status de estrangeira. Eu tive que aprender a ser humilde linguisticamente falando, eu diria. Tive que aceitar ajuda, pedir para falarem mais devagar, pedir para ser corrigida (isso é maravilhoso porque eles corrigem e completam frases de um jeito que eu nunca me senti constrangida).

Por incrível que pareça, o que me deu o estalo de que estava tudo bem não falar como os locais foi a Chiara Ferragni. Sabe, a blogueira, Blonde Salad? Então, foi um dia, assistindo um snap dela que eu me toquei como o sotaque italiano dela era forte. E constatar que uma das maiores blogueiras do mundo fala seu inglês com um sotaque carregadíssimo e tá tudo bem me deixou mais confiante para abraçar meu “estrangeirismo”. Depois fui lembrando outros nomes que antes não me chamavam essa atenção: Sofia Vergara, por exemplo, atriz mais bem paga da TV americana taí, fazendo sucesso com um sotaque colombiano fortíssimo. Ou seja, se elas são bem sucedidas sem abrirem mão de suas nacionalidades por que eu, que nem tenho ambições de fama aqui nos States, não posso me comunicar da minha forma?

Claro que Nova York ajuda muito nessa desinibição, afinal, aqui é uma torre de babel. Em uma saída na rua você ouve chinês, português, espanhol, francês, japonês, indiano, russo. E no fim das contas todo mundo acaba se entendendo em seus sotaques, falando certo ou errado, pedindo para repetir ou sendo fluente.

Hoje em dia eu já entendo tudo mais facilmente e as vezes até tento puxar uma conversa, e posso falar? Nunca me senti tão capaz, fiquei até com vontade de aprender outras línguas. Quem sabe eu volte pro francês? :)

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8 Comentários

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    Aline
    18.04.2017 às 12:29

    Carla,
    Super te entendo. Eu estudei muito inglês na adolescência, mas também tinha pânico de falar algo errado. Meu inglês enferrujou, porque trabalho no Judiciário e leio muita literatura jurídica da minha área, sempre em português.

    Meu marido fala um inglês maravilhoso, incrivelmente sem sotaque, porque trabalha em multinacional americana sempre fazendo reuniões em inglês.

    Ele sempre me disse pra eu não me importar, porque mesmo os americanos falam muita coisa errada. No fim das contas todo mundo se entende.

    Mesmo assim, eu sentia vergonha de falar inglês perto dele, mas me forçava nas viagens. Eu virei a encarregada de pedir comida nos restaurantes. Na Coreia foi uma experiência impressionante. Como o pessoal lá também tem dificuldade com o inglês, eles me entendiam e eu os entendia melhor do que o meu marido (porque ele fala muito rápido).
    Mas a experiência life-changing foi no safari na África do Sul, em que conversávamos muito com um casal inglês mais velho. Eu tinha dificuldade com palavras, mas conseguia me comunicar, mas uma hora eu disse que me inglês era ruim, aí o Andrew me disse “Aline, darling, you’re doing great, your english is much better than my portuguese”.

    Eu me emociono só de lembrar, porque essa simples frase mudou minha vida. Eu lembro dela toda vez que preciso me sentir segura ou superar medo e ansiedade. O Andrew não faz nem ideia do tanto que ele mudou minha vida, com sua frase acolhedora e empoderadora.

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      Carla Paredes
      21.04.2017 às 13:38

      Sim! Já ouvi isso algumas vezes do “seu inglês é melhor que meu português”. Amém, Andrew! :)

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    Lyanna
    18.04.2017 às 14:29

    Carla tem um vídeo da Laura em que ela fala sobre aulas que fez na biblioteca de NY para aperfeiçoar o inglês. Acho que é complicado para vc nessa fase do Arthur, mas quem sabe um dia, né? Mas como vc mesmo já disse talvez não seja o caso de aprender, mas se soltar.
    Outra coisa nada a ver: lendo seu post quase sem imagens, lembrei de um comentário recente de alguém que disse que só lê blog quem gosta muito de ler. Eu li seu post inteiro, pois gosto das experiências que vc compartilha, é verdadeiro, não é fake.

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      Carla Paredes
      21.04.2017 às 13:39

      Sim, ela já me falou desse lugar, mas ainda não dá pra eu ir! E eu to procurando falar sempre inglês com a mulher do dupla do Bernardo, a namorada de um amigo nosso que é americana e afins, to tentando me aperfeiçoar daí. E claro, ver tudo com legenda em inglês realmente faz toda a diferença do mundo!

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    Rita
    19.04.2017 às 1:04

    Amei. Toda vez que busco a perfeição da língua eu travo e me fecho num mundinho que não me permite ir a lugar algum. E qdo eu me permito falar, sem medo, é quase inexplicável como tudo flui.

    • RESPONDER
      Carla Paredes
      21.04.2017 às 13:39

      Tava doida pra mostrar pra vc esse post! Flui realmente!

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    Ana
    19.04.2017 às 19:16

    Chiara Ferragni não só tem um sotaque carregado, como o sotaque dela também é um dos mais lindos que eu já vi!

    • RESPONDER
      Carla Paredes
      21.04.2017 às 13:40

      Lindo demais mesmo! Acho italiano um charme! :)

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