5 em Comportamento/ Destaque/ feminismo/ Juliana Ali no dia 10.04.2017

José Mayer, o BBB e nós vamos em frente

José Mayer. Galã. Ator famoso. Bonito – sim, até hoje, cheio de charme. Um dos grandes tesouros das novelas da Globo. Sempre gostei do Zé Mayer. Assisto as novelas dele desde criancinha, que carisma, que graça, que simpatia, que delicinha. Descobre-se que assediou sistematicamente uma figurinista da emissora, com toda a cara de pau e falta de cuidado de quem entende que isso não tem nada demais, nem traz nenhuma consequência negativa.

Marcos. Galã. Médico. Bonito, jovem, todo mundo achava que ia ganhar o BBB 17. Eu achava. Gostei dele de cara. Primeira semana eu já tava: Ai que doutor mais fofo, ganha o BBB. Adoro BBB, vejo todos. Essa semana puxou o cabelo da menina. Agarrou o braço da menina. Gritou na cara da menina com o rosto grudado, dedo na cara, várias vezes. Deitou em cima dela, para a menina não conseguir escapar da “conversa”. O que mais faz, com qualquer mulher que se aproxima, é lançar os famosos mansplaining* e gaslighting**. Marcos, com a mesma cara de pau e falta de cuidado do José Mayer, já que está o tempo todo ciente de que milhões de pessoas estão vendo o que faz.

Coincidentemente, essas duas histórias foram se desenhando ao mesmo tempo. Interessante cada desfecho. E dizem muito sobre o que está acontecendo no mundo de hoje, na atualidade, em relação às mulheres, em relação à sociedade e em relação aos próprios homens.

Veja que temos aqui um homem de uma geração que certamente foi criada com valores extremamente machistas, e outro que deveria fazer parte de uma geração mais esclarecida, mais desconstruída. Será mesmo? Ambos entendem como tão natural o assédio e a violência, que nem se importam de escondê-los. Não se importam de serem vistos. Não sentiram medo ao tomarem essas atitudes. Medo de que? Tantas vezes esse comportamento foi visto por eles, por todo mundo, e daí? O que aconteceu? Pois é.

Só que no fim das contas, José Mayer se viu obrigado a escrever uma carta de desculpas, para tentar dar uma consertada no seu filme queimado (sem trocadilho). O barulho foi um pouco grande demais pra ele ter se saído com uma simples piadinha idiota, como tentou fazer no começo.

Há pouquíssimos anos, isso jamais teria acontecido. Prova disso é o caso Luana Piovani/Dado Dolabella. O boy bateu na CARA dela, imobilizou o braço da camareira que tentou intervir e menos de um ano depois estava milionário por ter ganhado o reality A Fazenda. E nem escreveu carta nem nada. Pelo contrário, na época se defendeu das maneiras mais sem sentido. Isso foi em 2008.

Avance nove anos e o Zé Mayer não vai perder o emprego, não vai perder a carreira – ainda não chegamos a esse ponto de maravilhosidade – mas ele não ganha A Fazenda esse ano, te garanto. E foi cortado da novela. Andamos um pouquinho.

Já Dr. (Hyde) Marcos, agressor de mulher, muito provavelmente vai para a final do Big Brother. Como eu disse, avançamos, mas nem tanto. Geral achou “deboas” ele amassar a Emilly toda. Nada. Demais. Mas não é bem assim.

O moço vai sair da casa e a coisa não vai ser fácil para ele não, e você sabe disso. Viva a Internet! As redes sociais são sim, uma revolução. Elas obrigaram José Mayer a escrever carta, obrigaram a Globo (que tava doida pra fechar essa caixa de Pandora) a se posicionar em favor da figurinista, e agora vão obrigar Dr. Marcos a repensar o que aprontou lá dentro da casa. É pouco, mas é mais do que conseguiu a pobre Luana Piovani.

E tem mais: noto que todo esse barulho mexe com os homens. Notei isso nos homens da minha vida. Enquanto os mais ignorantes ficam naquele eterno papo de “mimimi” e “feminista odeia homem”, alguns param para pensar. Alguns se analisam, e outros, pelo menos, calam a boca por pura vergonha, mesmo que por dentro continuem os mesmos. E isso, também, é um movimento positivo, ainda que pequeno. É um começo.

Por isso, sigo aqui. Insisto. Falo mesmo. Escrevo. Explico. Pra quem quiser ler/ouvir. Temos um longo caminho, mas vamos nele. Não é fácil, e é lento. Mas é como diz sempre minha mãe, de 73 anos: “Ah, filha, se você visse como era horrível no meu tempo. Você tem sorte.”

Quero, um dia, dizer isso para a minha filha também. E quero ter sido responsável pela mudança que virá para a geração dela, de alguma maneira.

E você?

Com amor, Ju.

*mansplaining: quando um homem fica todo o tempo interrompendo uma mulher e tentando explicar/ensinar algo a ela de uma maneira infantilizadora, como se ela não entendesse ou fosse burra.

**gaslighting: abuso psicológico onde o homem bombardeia a mulher com um eterno discurso, distorce os fatos a seu favor a tal ponto que a mulher se confunde, e no final tem a impressão que a culpa é sempre dela. Aquele cara que sempre chama as mulheres de “loucas”.

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5 Comentários

  • RESPONDER
    Michele
    10.04.2017 às 19:36

    Puxa, texto muito bom, acho que você falou tudo.

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    Roberta
    10.04.2017 às 19:54

    Jô, mais uma vez (e como sempre): MARAVILHOSO!

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    Andréia
    11.04.2017 às 11:24

    Texto perfeito. Exposição dos fatos e análise muito bem colocadas. Parabéns!

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    Tamy
    12.04.2017 às 13:12

    Uma vez uma amiga me perguntou se eu achava que valia a pena ensinar a minha filha a lutar ou a se encaixar na sociedade para sofrer menos. Eu disse que sempre lutar. E quando ela crescer, as coisas vão estar melhores do que estão pra gente, mas isso depende do agora. Vamos em frente!

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    Maria
    13.04.2017 às 0:13

    Ele nem se deu ao trabalho de escrever a carta..contratou gente pra isso

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