5 em Autoestima/ Semanas da Moda no dia 16.03.2017

Não sendo magra na semana de moda

2015 foi o último ano que eu trabalhei com semanas de moda, diria que fechei o clico com chave de ouro quando pudemos cobrir uma parte da Paris Fashion Week. Depois disso ficou difícil acompanhar a correria desses dias com um bebê de poucos meses e uma vida virando ao avesso com a mudança para cá.

Até então eu não tinha sentido falta dessa semana de loucura, mas dessa vez eu comecei a ver as fotos do SPFW e senti uma pontinha de vontade de ver os desfiles, conversar com as amigas e elaborar looks do dia. Para matar um pouco dessa vontade passei a acompanhar os insta stories de quase todo mundo que eu sigo e está na SPFW. Porém um detalhe me chocou, a quantidade de “miiiiiga, ce tá magraaaa(e elogios derivados) que eu ouvi.

Para começo de conversa, depois que a Camilla me alertou com um belíssimo tapa na cara, passei a entender que chamar uma pessoa de magra não deveria ser nem um elogio já que chamar uma pessoa do adjetivo oposto – isso é, gorda – é visto como falta de educação e só perpetua a ideia que um corpo magro é sinônimo de vitória (achei que valia passar para frente esse tapa na cara). Depois dessa passei a ser a problematizadora da frase e tenho evitado usá-la. Mas não foi bem isso que me chocou.

O incômodo aconteceu porque me lembrou de como eu me sentia inadequada com o número que eu vestia nessas semanas de moda, e consequentemente com o meu corpo. Durante o resto do ano eu era a pessoa mais confiante com minhas roupas G e 42, nunca me achei gorda, mas era só chegar essa semana para eu me sentir mais vulnerável do que nunca. 

Eu ousaria dizer que me lembro de ouvir frases sobre essa pressão e desconforto até mesmo de colegas que vestiam 38/40. Na época eu não enxergava a questão, mas hoje reparo que dietas e restrições eram assuntos recorrentes e provavelmente só não ouvi mais porque sempre me cerquei de pessoas que preferiam aproveitar do que se privar de bebidas ou grupos alimentares. Hoje, reavaliando tudo, acho que não era apenas eu que me sentia vulnerável nessa semana, mas como não posso falar por ninguém, vou voltar a falar de mim. 

Por 5 anos consecutivos eu frequentei semanas de moda de SP, do Rio e até mesmo de NY e Paris. Presenciei momentos incríveis, pude trabalhar com marcas fenomenais, fui apresentada e fiquei amiga das pessoas mais maravilhosas, pude conhecer melhor o meu estilo ao entrar em contato com tanta referência. Mas era só começar a ver as araras das assessorias e das marcas parceiras para começar o sentimento de inadequação.

Não é novidade nenhuma que a moda brasileira ainda é muito pautada na magreza e valoriza mais do que nunca o 38. Se for 36, melhor ainda. Na pool party a gente teve a certeza de que nada mudou, já que de todas as marcas que prospectamos, as únicas que não responderam (nem para falar que não iriam participar) e não mostraram muito entusiasmo foram as de moda, todos os outros setores da indústria responderam. Outro dia vi uma dona de marca famosa dizendo que estava comendo muito mas Deus a livrasse de pesar 80kg (se uma dona de marca fala isso, você tem certeza que nunca encontrará roupas acima de 42 lá, né?). Vi gente de dentro da indústria disposta a incluir tamanhos diferentes ser vetada e “obrigada” a escolher modelos convencionais. E tudo isso reflete nas peças que ficam nas assessorias ou nos showrooms das marcas que, por sua vez, são os lugares que nós, blogueiras, temos acesso na hora que precisamos de peças diferentes para complementar os looks. Dito isso, dá para entender a dificuldade que eu, a Jo e provavelmente toda blogueira que usa acima de 40/42 temos toda vez que precisamos nos vestir dependendo das roupas que estão nesses lugares, né?

Por mais que eu sempre tenha conseguido me virar com as possibilidades, por mais que para muita gente eu seja vista como padrão, a verdade é que a maioria das peças mais interessantes quase nunca estavam disponíveis em um tamanho que me vestisse bem. E aí o que você faz quando se vê rodeada de roupas maravilhosas que não cabem em você? Eu digo por mim. Por mais que a minha autoestima e autoconfiança estivessem muito turbinadas a ponto de nunca ter tido a vontade de fazer loucuras para caber nessas roupas, o sentimento de inadequação era inevitável.

Na última semana de moda que participamos em São Paulo, em 2015, eu estava muito esperançosa. Pela primeira vez fomos para o SPFW tendo como patrocinadora uma multimarcas online onde podíamos elaborar looks incríveis porque dificilmente não tinha nosso tamanho. Em um dos dias, inclusive, tivemos o privilégio de irmos de Tory Burch, marca cujo marketing acreditava na gente e no nosso trabalho a ponto de nos vestir no desfile da própria aqui em NY independente do peso (agradecimentos eternos por isso, Bruna <3).  Aliás, as fotos que ilustram esse post são desses dias de glória. Minhas esperanças continuaram crescendo quando recentemente, na última NYFW, chamou atenção o fato de 27 modelos que vestem acima de 42 terem participado da edição.

Por isso, quando vi tanta gente na semana de moda brasileira exaltando a magreza como melhor elogio eu fiquei um pouco triste. Porque me fez ver que enquanto o elogio por aí for esse, toda a inclusão que estamos vendo acontecer na moda por aí afora pode não ganhar força no Brasil.

Pelo que vejo, a impressão que me dá é que muitas marcas parecem apenas fazer campanhas inclusivas para serem viralizadas na internet pelos nichos que reclamam da falta de representatividade. Na hora de escolher modelos diversas, influenciadoras de todos os tipos, de deixar o produto com grade alta no ponto de venda, pronto, não tem. Parece que para a moda o investimento na diversidade é pontual, para inglês ver, pois na hora de misturar todo mundo na semana de moda isso não acontece. 

No fim das contas a saudade da ousadia em fazer looks passou, o saudosismo me deixou e no fim, só consegui pensar que talvez, mesmo tendo mudado o olhar para mim mesma e ficado mais segura em muitos aspectos, a sensação de inadequação voltasse a fazer parte de mim se hoje eu estivesse em uma SPFW. E acho uma pena ver que um setor tão importante para a autoestima e para o autoconhecimento como a moda pode interferir nesse processo de uma maneira quase perversa. Uma pena, porque tinha potencial pra ser muito mais. 

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5 Comentários

  • RESPONDER
    lorraine carvalho
    16.03.2017 às 15:38

    Meu DEus como e maravilhoso ler isso!

  • RESPONDER
    Camyla Mendes
    16.03.2017 às 16:27

    Texto maravilhoso, Carla!

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    Ana Luiza Palhares
    16.03.2017 às 16:29

    Que libertador ler seu texto, Carla!

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    Gaby Melo
    17.03.2017 às 12:11

    Eu nunca fui em uma semana de moda, e tenho sorte de não passar por muitos perregues em relação ao tamanho de roupa para vestir, já o comprimento é outra questão. Quantas roupas interessantes eu vejo por aí que eu não posso usar com os meus 1,54m. E isso é só em relação a outwear. Cadê os sutiãs bonitos pra gente que veste D-cup?

    • RESPONDER
      Carla Paredes
      17.03.2017 às 16:05

      Gaby, Loungerie! Todos os meus recentes vieram de lá! <3 Quanto à altura, eu tenho uma amiga de 1,56 que usa TUDO que vc pode imaginar e nem precisa de salto alto. Vc pode usar, sim! Tem que só achar as referências certas! :)

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