5 em Comportamento/ Convidadas/ maternidade no dia 13.03.2017

Não foi só baby blues, foi depressão pós parto mesmo

Meu maior sonho sempre foi ser mãe. Engravidei rápido e tive uma gravidez super tranquila (apesar de ter travado o ciático e isso ter me desestabilizado no final). Mas jamais imaginei que teria depressão pós parto. Acho que ninguém imagina isso, não é? Pois bem, eu tive.

Ao contrário do que muita mulher vive, eu tive hiperprodução de leite. E certamente esse foi um grande desencadeador de tudo. Na verdade, a depressão não tem UMA causa. É uma junção de várias, especialmente desequilíbrios químicos, que na gravidez é a coisa mais normal do mundo.

Pois bem, produzi MUITO leite. Minha apojadura (descida do leite) foi extremamente dolorosa. Acabei tendo a ajuda de duas enfermeiras, o que salvou a minha vida pois a rotina de quem produz muito leite é também muito dolorosa. Eu tinha que “preparar” o peito 30 minutos antes da Catarina mamar. Enquanto ela mamava em um peito, eu tinha que tirar o excesso (que era muita quantidade) de leite do outro. Com ordenha manual, já que usar uma bomba estimularia a produção. Não podia beber muita água, banho só morno pra frio (sendo que tava 12/13 graus em São Paulo), não me expor muito ao sol, e, o pior de tudo, compressa gelada após TODAS as mamadas. Todas, sem exceção. Enquanto meu marido (que foi meu grande parceiro) colocava ela pra arrotar, eu fazia as compressas. Meu ritual de amamentação durava, pelo menos, 1h e meia, e Catarina mamava de 3 em 3h. Sente o drama!

Isso fora a dor que é amamentar, né? Os machucados, a atenção à “pega” e à posição certa, a “chupetagem”…. Amamentar pode ser uma das coisas mais difíceis do mundo. E isso deveria ser mais dito. Mais divulgado.

Junto com isso, vem a mudança repentina de vida. Um dia antes do bebê nascer, você é você. No meu caso, sempre fui uma pessoa independente. Trabalhei até o último dia antes da Catarina nascer e consegui conciliar vida profissional e pessoal. Depois que o bebê nasce, essa vida anterior “some”. Sair de casa, só pro pediatra. E o mais intenso: você tem alguém que depende totalmente de você, 24 horas por dia,  enquanto você mesma ainda está debilitada e precisando de cuidados. Muito puxado.

Pra melhorar, a gente ainda morava num bairro super residencial, onde os vizinhos não curtiam muita interação. Imagina… Carioca, que adora um buxixo, totalmente isolada no puerpério (além do isolamento comum da fase em si). Ah, e longe da família. Não sei afirmar se esse combo foi suficiente pra me causar a depressão. Mas, com toda certeza, contribuiu muito.

Depois de quase 1 mês e meio, a amamentação entrou nos eixos. Mas eu, e todo mundo que convivesse comigo, sabia que eu não tava legal. “Mas é normal. É baby blues”. E vamos levando. Só que diferente do baby blues, a depressão não vai melhorando. Ela piora com o passar dos dias.

E um ponto importantíssimo: quem acha que a mãe com depressão pós parto rejeita o bebê está completamente enganado. É bem verdade que, com a evolução do quadro, você vai ficando menos paciente e mais apática mas jamais a rejeição está obrigatoriamente dentro do quadro. A maioria das mães com depressão não rejeitam os filhos e até têm dificuldade de confiar em alguém para isso. No meu caso, só eu e meu marido podíamos cuidar dela. Era um medo imenso de alguém fazer algo errado ou diferente do que eu acreditava ser melhor pra ela.

Com 2 meses e meio de parida, logo depois de ler um texto de um blog que uma amiga me mandou sobre depressão pós parto, decidi pedir ajuda.

O meu maior medo era o psiquiatra mandar eu parar de amamentar. Imagina! Depois de tudo isso?! Quando cheguei lá, contei meu medo e ouvi um: “Parar? Mas por quê? Milhões de mulheres no mundo têm depressão pos parto e amamentam”. Parecia um sonho estar ouvindo isso do médico. Quer dizer, acho que sonho não é bem a palavra certa. Rsrs Mas foi um PUTA alívio. Se eu soubesse, teria pedido ajuda muuuuito antes. É bem verdade que existem linhas de condução da depressão pós parto, assim como para quase todas as doenças. Tem médico que prefere pedir a suspensão do aleitamento, mas esse não foi o meu caso. E isso me deixou muito feliz em meio ao caos.

Mesmo deprimida, eu não me afastei da Catarina por momento algum. Era eu que trocava fralda, que brincava, que colocava pra dormir, que dava de mamar de 3 em 3h. Mesmo com toda a questão da amamentação, eu insisti muito nela. Queria muito amamentar e consegui manter até quase 1 ano e 4 meses, quando ela mesma quis parar. Hoje, às vezes, sinto falta. É um amor imenso que dá medo. Acho que esse medo também contribuiu pro quadro. O puerpério, pra mim, até agora, é a fase mais complicada da maternidade. Sei que ainda virão muuuuitas outras fases difíceis, mas você está muito fragilizada, com os hormônios todos bagunçados e, de um dia pro outro, vê sua vida mudar totalmente. Na verdade não vê. Essa é a questão. 

O processo de recuperação não é simples. Saí rápido do fundo do poço, mas tirar totalmente os pés das bordas do poço não foi tão rápido assim. Eu que sempre adorei frases no gerúndio, descobri o prazer de uma afirmação no presente. Estou curada. Demorou, exigiu muita paciência e determinação, mas passou. Como tudo passa. Agora é ir retomando a vida que acaba ficando “pausada” pela depressão.

Quem estiver passando por algo parecido, não fique com vergonha de pedir ajuda. Depois que assumi a depressão, descobri que ela é muito mais comum do que se imagina. De verdade. Se precisar bater um papo, tô aqui. Inbox de portas abertas.

Gostou? Você pode gostar também desses!

5 Comentários

  • RESPONDER
    Milena
    14.03.2017 às 7:31

    Marina, que texto sincero e emocionante!
    Não sou mãe, mas também acho que deveriam falar mais sobre esse assunto tão delicado e difícil…certamente ajudaria muitas mulheres a passarem por essa situação na qual a mulher fica tão fragilizada…
    Obrigada por seu depoimento e espero que seja cada dia mais feliz com sua Catarina! <3

  • RESPONDER
    Tamy
    14.03.2017 às 8:42

    Marina, eu não sei se tive depressão pós parto ou se foi um baby blues daqueles… sei que depois de mto lutar, consegui fazer as coisas irem entrando nos eixos, com ajuda da família e amigos. Uma amiga que passou por uma depressão forte (que durou quase um ano após o parto), me deu um mantra: “mesmo que essa fase dure um ano, como a minha durou, ainda vai valer a pena”. E isso me ajudou demais. Eu morro de medo de passar por isso de novo no segundinho (estou grávida novamente)… e lembro-me de eu implorando para minha médica alguma coisa pra melhorar… mas vamos em frente, temos que ficar atentas aos sinais e pedir ajuda, sempre.
    Obrigada pelo texto.

  • RESPONDER
    Vanessa
    14.03.2017 às 10:23

    Belo relato!…
    Sim, é uma mudança muito radical!
    Maternidade é algo avassalador e assustador, e maravilhoso, tudo junto!…

  • RESPONDER
    Géssica
    14.03.2017 às 13:21

    Marina, que texto maravilhoso!
    Não sou mãe ainda, mas isso é uma das coisas que já presenciei e morro de medo de que aconteça comigo.
    Obrigada por compartilhar e atingir outras mamães que estão na mesma situação e que ainda não conseguiram pedir ajuda.

  • RESPONDER
    Josiane
    14.03.2017 às 17:08

    Tirando a produção excessiva de leite, enxerguei-me totalmente em seu relato. Falam das mamadas, do arroto, das cólicas, mas ninguém nos fala da perda de identidade pós maternidade… minha filha tem 2 anos e meio. Não fui diagnosticada e nem procurei ajuda, mas por já ter tido quadros de depressão anteriormente, tenho certeza que tive depressão pós parto e só eu sei o quanto sofri…

  • Deixe uma resposta