5 em Comportamento/ crônicas/ Destaque no dia 07.02.2017

O telefonema, o recolhimento e o tal medo de se envolver

Esses dias o telefone tocou de madrugada e eu atendi no instinto, não olhei para o visor, não sabia quem estava ligando. Na mesma hora eu ouvi a voz chorosa no outro lado da linha e aquela parte de mim que estava chateada de acordar no meio da noite deu espaço para um lado mais acolhedor, que mentiu e disse estar acordada. Em um segundo eu já sabia quem era, o que tinha acontecido e eu só precisava dar um abraço quentinho mesmo que com palavras.

Ela precisava falar, mesmo sabendo que eu já imaginava o que tinha acontecido. Aquela menina tão doce precisava colocar pra fora toda amargura que lhe apertava o peito. É engraçado que quando tomamos uma decisão difícil muitas vezes repetimos em voz alta para outras pessoas tentando nos convencer de que agimos certo. Eu chancelei, afinal, ela tinha tido coragem, dito a verdade e agido certo, mas eu sabia que doía do mesmo jeito. Ela fez o que precisava ser feito, mas não mudava a intensidade da dor.

Eu havia dito a ela que tudo isso ia acontecer há uma semana atrás, mas ela quis fazer tudo com calma e eu a admiro por isso. Muitas vezes quando a gente gosta de alguém fechamos os olhos para o que não tá mais tão legal e não consegue perceber direito quando chegou a hora que não vale mais insistir. Ela esperou uma semana, deu a ela mesma inúmeros testes e reprovou em todos. Não dava pra esperar mais, a ordem dos fatores não alterou o resultado. Nosso pior medo aconteceu e ela se sentia quebrada, precisando de conserto. 

Os minutos foram passando e eu disse a ela o que meu pai me diria: não sofra por antecedência. Agora é preciso esperar e ver no que vai dar. Não gaste suas lágrimas antes de ter certeza, as cartas estão abertas na mesa, ainda não se sabe se haverá vencedores ou um game over. Claro que a menina com o coração despedaçado nas mãos não conseguia absorver esse conselho com clareza. Por isso eu deixei ela falar e se repetir.

O que essa minha amiga não sabia é que a ligação dela me colocou sentada numa montanha russa interna onde fecharam o cinto e ligaram o brinquedo. Parece que eu tive uma epifania, uma revelação, sobre mim mesma. Chegar tão perto da dor dela me fez questionar minha postura nos últimos meses. Nunca me senti tão enferrujada antes, logo eu, a mulher da vida amorosa mais agitada estava escondidinha na toca, usando das desculpas mais tolas para justificar esse tempo pra si.

Comecei a pensar de trás para frente nos motivos que me trouxeram ao tamanho recolhimento que eu fiz. O telefonema acabou, ela desligou e aí fui eu quem não conseguia dormir. Será que eu me transformei naquelas pessoas traumatizadas e cheias de medo que se fecham para sentir de verdade? Eu, que detesto esse tipo de superficialidade?

Durante esses quase dois anos eu nunca fiquei sozinha de verdade, fosse a fase dos vários caras ao mesmo tempo ou nos dias que passei investindo em uma só pessoa, fosse nos rolos ou em um namoro. Essa foi a primeira vez que eu me recolhi de forma tão radical, foi a primeira vez que me senti insegura nesse quesito. Foram os primeiros 3 meses sozinha de verdade. Eu nem posso por tudo na conta da minha história, já que na verdade eu sinto alivio de saber que tudo foi encerrado antes que eu tivesse mais problemas, antes que meu coração leviano me colocasse em uma área de risco ainda mais complicada.

No entanto, ouvindo o choro dela eu entendi meu recolhimento. Eu não estou sofrendo e tampouco queria voltar no tempo. Eu não mudaria nada. Aprendi tanta coisa, mas tanta coisa, que acho que parte desse tempo eu levei para catalogar os aprendizados e guardá-los nas estantes certas dentro de mim.

O que me chocou um pouco foi que nessa ligação eu me vi com medo. A entusiasta da queda livre, das relações dos mais variados formatos, das experiências diferentes, do ganhar parâmetros… estava ali, quietinha com medo. Medo de se entregar, medo de abrir aquela cicatriz, medo de doer de novo. Me entregar de verdade me custou uma cicatriz pública e notória no meio do peito, estampando meu discurso por onde quer que eu ande. Eu nunca quis que fosse assim. Me sinto um paradoxo ambulante ao me ver com medo e para quem vive como eu, o medo de se envolver é uma armadilha traiçoeira que eu não quero no meu caminho.

Esse texto podia ser sobre a minha amiga que está com o coração em pedaços no meio das mãos, mas ele é sobre mim. Autorreferente como de costume, eu acabei vindo aqui tentar me convencer de que eu preciso voltar a ser aquela versão aventureira, divertida, sem medo e que se jogou de tantos precipícios nos últimos dois anos. Ser aquela versão foi tão incrível, jovem e fluído. Por que as coisas não podem apenas voltar a ter leveza? Por que agora parece que tudo ficou mais complicado? Por que eu me sinto tão cansada de só ver gente pela metade?

A dor da minha amiga pegou num ponto frágil meu. A verdade é que se apaixonar e se entregar de verdade tem um preço, quem tem coragem paga por ele. Eu sempre tive coragem. No entanto começo a entender pela primeira vez quem de fato tem medo, esse tanto de gente que cria limites imaginários para se impedir de sentir. 

Eu lutei muito no caminho do autoconhecimento para aprender a SENTIR mais e PENSAR menos. Não quero retroceder. O problema dessa técnica de blindagem é que quando a gente blinda uma parte, acaba blindando tudo. Eu vim me fechando aos poucos, dando desculpas profissionais e físicas para afastar todo mundo que chegasse perto. Como se numa alternativa de dificultar a aproximação fosse ficar mais fácil estar só.

Não posso mentir, amei esse tempo sozinha, mas não quero transformar essa experiência maravilhosa em uma causa a ser vivida. Não preciso – acho que nem quero agora – encontrar o homem da minha vida, mas quero estar aberta para o infinito de possibilidades.

Então, se preciso for, eu vou com medo mesmo. Tudo mudou, tudo vai mudar mais ainda, mas eu não vou poder deixar de sentir pra sempre.

Espero que da próxima vez que o telefone tocar eu já não tenha medo. 

———————————– Esse texto pertence a tag de crônicas do blog ———————————–

Conforme contamos aqui, a tag de crônicas não tem nenhuma obrigação de refletir histórias verdadeiras, nossas ou recentes. Ela é inspirada em sentimentos reais e muitas vezes floreada com a imaginação.

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5 Comentários

  • RESPONDER
    Vanessa
    07.02.2017 às 15:41

    Adorei!

  • RESPONDER
    Renata Castro
    07.02.2017 às 16:58

    Jô, já tá ficando redundante falar que amo seus textos!! kkkkk
    Você é demais!!
    Bjão

  • RESPONDER
    ana caroline sobreira
    11.02.2017 às 15:43

    q texto maravilhoso!

  • RESPONDER
    Amanda Saviano
    16.02.2017 às 10:10

    Jô, apesar da diferença de idade, sinto que venho passando pelas mesmas coisas que você! Continue com os textos sinceros! Beijos mil

    • RESPONDER
      Joana
      17.02.2017 às 9:29

      Fofa!
      Essas questões não tem tanto a ver com a idade né? Tem mais a ver com uma expansão de consciência no existir!

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