16 em Autoconhecimento/ Autoestima/ Destaque/ maternidade no dia 06.02.2017

Maternidade e egoísmo

Eu sou filha única. Apesar de já ter ouvido de muita gente que eu não sou mimada para quem é filha única e saber que eu tive uma ótima educação dos meus pais, acho que é mais do que normal eu ter alguns episódios de egoísmo que provavelmente alguém que cresceu com irmãos não terá. Isso nunca me afetou em nenhum relacionamento, por isso me peguei assustada com o quanto me descobri egoísta depois que virei mãe.

Já falei aqui, né? O que mais dói na maternidade é o quanto você passa a se conhecer e se conscientizar. Você descobre não só as suas forças e se admira com elas mas também leva vários tapas na cara dos seus defeitos. E foi assim que eu descobri que eu era egoísta pra caramba – e fiquei num impasse. Será que esse egoísmo queria dizer que eu sou uma pessoa ruim? Uma mãe ruim?

Para exemplificar, vou começar do primeiro momento que a ficha caiu: a amamentação. Contei para vocês que eu tive muita dificuldade para amamentar e em um dado momento isso me trouxe uma crise de ansiedade que me deixou realmente mal. Depois que fiquei sabendo que dificilmente conseguiria alimentá-lo exclusivamente, aconteceu minha primeira briga interna: Insisto em tentar dar o peito mesmo sabendo que aquele momento não estava gerando uma troca saudável tamanha a angústia que eu estava sentindo ou cuido de mim e começo a ordenhar meu leite e dar na mamadeira? Decidi cuidar do meu psicológico, que estava ficando cada vez mais estranho, e aquela foi a minha primeira grande decisão “egoísta” na maternidade.

Depois vieram outros momentos que me fizeram questionar o quanto esse sentimento estava sendo prejudicial. Coisas como a minha falta de vontade de deixar de trabalhar para focar em ser mãe em tempo integral, minha irritação quando eu passava um dia em função do Arthur e não conseguia cuidar de mim ou até mesmo quando ficava chateada de ter que sair mais cedo de algum lugar (cheio de pessoas sem filhos, claro) que estava ótimo porque no dia seguinte tinha que acordar cedo.

Até que um belo dia, conversando com uma das mães maravilhosas que estão ao meu redor, percebi que a maioria chegou em uma conclusão muito simples e quase óbvia, mas que mudou minha vida: “Carla, você tem que estar bem para cuidar bem do seu filho”. Juro, quando absorvi essa frasezinha parece que minha vida se iluminou.

Óbvio que ela não é um aval para eu esbanjar egoísmo por aí, até porque esse nunca foi um comportamento que eu nutri (tirando com comida, sou tipo Joey doesn’t share food), mas ela foi essencial para que eu passasse a ser menos cruel comigo mesma quando eu percebia que estava tendo pensamentos e sentimentos egoístas.

Antes de virar mãe eu escutei vários conselhos, poucos muito valiosos, muitos que me assustaram e alguns que iludiam. Um desses é o lugar comum de que quando você tem um filho você descobre a maravilha que é se doar por completo. Hmm, sim mas nem sempre. Já pararam para pensar como essa ideia sobre maternidade pode gerar muita frustração?

No meu caso, me frustrei demais justamente porque eu estava esperando me tornar uma pessoa altruísta e 100% focada naquele bebê lindo e saudável que estava na minha casa. Jurava que ser mãe era se botar em segundo plano totalmente e que isso era algo que todas as mulheres do mundo aprendiam a lidar. Aí o Arthur chegou e eu vi que não conseguia me anular, vi que eu tinha outros interesses, outras vontades e necessidades que não queriam ir embora só porque eu virei mãe. É claro que faço tudo pelo Arthur, amo ele mais que o mundo, mas descobri que se eu não fico em primeiro lugar em alguns momentos, eu não consigo ser a mãe que eu gostaria de ser.

Hoje já não me culpo mais se eu não consegui amamentar, não me sinto uma péssima pessoa quando eu dou graças a Deus que ele foi dormir (mas duas horas depois eu já to com saudades rs) ou acho que sou a pior mãe do mundo porque o maior desejo que eu tenho atualmente é tirar férias sem filhos. Se isso é ser egoísta, então to sendo com orgulho.

Eu e Guitar Hero, amor verdadeiro há alguns bons anos e que me fez sentir tão bem enquanto jogava. Me reconectei com a Carla de 20 e pouquinhos, que ainda namorava, estudava e não tinha filhos nem grandes preocupações ou responsabilidades – e foi tão delicioso! <3

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16 Comentários

  • RESPONDER
    Carol R.
    07.02.2017 às 3:20

    Ca
    Você é uma das mães mais lúcidas que eu conheço.
    Bjos querida

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    Aline
    07.02.2017 às 3:49

    Amo sua sensatez, Carla!
    Os pais precisam criar é educar pessoas boas, independentes, capazes de sobreviver no mundo. Não precisamos de “reizinhos” mimados que são tratados como o centro do mundo desde bebês.

    Esse seu “egoísmo” ajudará o Arthur a se tornar uma pessoa melhor, pois, de certa forma, ele vai aprender o que é respeito ao próximo.

    Legal acompanhar esse seu amadurecimento.

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    Daiane
    07.02.2017 às 8:31

    Amei o texto..estou querendo ter filho esse ano e me ajudou muito, pq tbm acho q agente ñ pode se anular..e isso para mim não e ser egoísta. Minha amiga teve uma filha e o pediatra dela falou para minha amiga, que o bebê q tem q se adaptar a sua rotina e não vcs a ele, ele q esta chegando. E outra coisa no texto q me chamou atenção, foi qdo vc fala q qdo vc tem uma filho vc conhece o que se doar por completo, sou casada e meu esposo tem um filho, ai vivo falando pra ele, q ele tem q prestar mais atenção no casamento, ñ peço e nunca pedi para ele deixar o filho de lado, mas prestar mais atenção na gente, por exemplo viajar só eu e ele..enfim. Mas ai ele sempre vem com aquele frase, qdo vc tiver um filho vc vai sentir o q sinto..mas penso exatamente como vc Carla, tenho certeza q qdo eu tiver, vou querer simter meus momentos. Enfim, obrigada por compartilhar sua vida, nos ajuda mto. Bjos

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      Alessandra
      07.02.2017 às 10:08

      Daiane, vc está certa! Meu marido tem uma filha de 12 anos do primeiro casamento e agora temos um menino de 3 anos – estamos juntos há 7 anos. Demorou um tempo para ele se conscientizar que precisávamos de um tempo só, ele dizia o mesmo que o seu marido diz. Foi uma luta achar um equilibrio entre essas “duas vidas” que ele vivia. Ainda bem que ele internalizou o que eu dizia, tanto que hoje deixamos nosso filho com a minha mãe e viajamos sozinhos… Numa delas ficamos 16 dias fora. Todo mundo ganhou! Os avós que ficaram com ele, ele que se viu tão amado e vivendo tanta coisa diferente, nós que nos reencontramos como casal.

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    Tamy
    07.02.2017 às 10:02

    Gostei do texto. O que mais aprendi em ser mãe é ter respeito. E isso inclui, obviamente, o respeito por mim mesma. Do mesmo modo que aprendemos a respeitar o bebê (o tempo, o desenvolvimento…) e os outros, como pai do seu filho (o modo com fazem as coisas com o filho, que pode ser, e provavelmente é, diferente do seu) e família em geral, deveríamos aprender a nos respeitar. A minha maior dificuldade, no entanto, foi lidar com a culpa de não querer (e querer tb, ao mesmo tempo hahahaha) fazer minhas coisas e ficar com a minha filha. Demorei, mas estou achando um equilíbrio. No fundo, acho que sempre que estamos longe, pensamos que podíamos estar juntos – especialmente eu que só a vejo a noite. Mas vamos lidando… temos a vida toda para aprender…

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    Alessandra
    07.02.2017 às 10:04

    Isso não é egoísmo, é a maternidade real! Cada um vive o seu “conto de fadas” particular.
    Acho lindo e maravilhoso aquelas mãe que largam tudo pelo filho, como acho lindo mães ditas “egoístas” porque também prestam atenção em si mesmas (sou dessas). No fim do dia eu sei que se eu não estiver em paz internamente, não consigo ser boa nem para ele nem para mim mesma….

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    Juliana de Paula
    07.02.2017 às 10:33

    Quanta lucidez! Adoro tuas reflexões.
    Bjs

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    Daiane
    07.02.2017 às 11:00

    Nossa q legal Alessandra, lendo sua msg me da um pouco de esperança. Pq so acho q as coisas vão melhorar qdo agente tiver nosso próprio filho, pq ele vai ver q vou abrir mão sim de ter um tempo com meu filho para curtir meu casamento sem nenhum tipo de remorso. Pq pra ele, meu marido, por conta da separação do outro casamento, acho q isso não e só dele mas de tdo mundo q se separa q tem filho, q fica sempre aquele remorso, Que tem q fazer tudo para o filho. Enfim!! Bjosss

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    Gabriela
    07.02.2017 às 12:51

    Adorei o texto. Não tenho filhos, mas nunca gostei da ideia de que ser mãe é sempre se colocar em segundo plano. http://www.alemdolookdodia.com

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    Juliana
    07.02.2017 às 20:15

    E então mostrei esse texto para o meu marido e disse: essa sou eu! <3

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    Allana Diniz
    08.02.2017 às 12:27

    Texto maravilhoso. Eu acho que esse tipo de pensamento, essas situações, angústia acontecem muito com que é de uma geração mais recente, explico: nós temos uma vida mais acelerada, cheia de afazeres, como trabalhar fora, temos uma vida social muito ativa e independente. Quando temos o filho, a gente sente a necessidade de continuar todas as nossas atividades anteriores, não abdicar de nada mas adaptar a nova realidade com o bebê. Eu já escutei da minha mãe que eu não sinto saudades da minha filha, porque se sentisse eu não saía no meu tempo disponível, o detalhe é que trabalho fora e a coisa mais rara, mais rara mesmo sou fazer algo sem minha filha ou sair sozinha. Eu sinto a necessidade de manter algumas atividades que tinha antes de ter filho, estou retomando aos poucos, do jeito que consigo. Parece que isso me deixa mais completa como mulher, como pessoa. O texto reflete muito a realidade de muitas mães atuais! E isso não é egoísmo não, é só uma pessoa que consegue ser mulher, esposa, mãe, profissional e outras coisas mais, tudo junto!

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    Andreia
    08.02.2017 às 14:09

    Super me identifico com seu texto. Sempre ouvi de muitas pessoas próximas de que não lembravam da vida que tinham antes de ter o filho. E eu sempre me sentir desconfortável com isso pq não conseguia sentir o mesmo. Aí eu pensava, vixi, eu não sou normal não rsrsr. Porque não só me lembrava, como sentia falta de algumas coisas que fazias antes. Que bom que esses assuntos estão começando a ser falado, pq ninguém vive a vida de comercial de margarina…..

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    Rafaela
    08.02.2017 às 15:22

    Olá Carla… Nossa, me descreveu muito… também sempre senti que a maior parte das mães só conseguem ser felizes ou curtir um momento se os filhos estao ao lado, enquanto eu me divirto muito em locais ou situações em que minha filha não está… Eu a amo mais que tudo, mas adoro momentos em que posso relembrar como era só cuidar de mim mesmo…. e isso não tem nada a ver com egoísmo de filho único porque tenho 2 irmãs, sou a do meio e me sinto exatamente como vc! Beijos

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    Rita
    08.02.2017 às 16:51

    Tem egoísmo em nada ai não. Tem vc sendo vc, pq só assim pode dar a melhor mãe que o Arthur poderia ter: você.

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    clara
    09.02.2017 às 10:00

    Carla, amei esse texto e me identifiquei super! Sou mae de um menino de 2 anos e estou grávida novamente. Tive muitas duvidas e angustias com meu primeiro filho e tb tive esse momento “click”, no qual percebi que não era feliz se me anulasse e ficasse 100% focada no meu filho! Acho que nada em excesso é bom e o que vale é sermos felizes, pois nossos filhos sentirão isso!

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    Cristina
    10.02.2017 às 11:24

    O que eu vejo é que a nossa geração não foi criada e nem preparada para ser a mãe que as nossas mães e avós foram. A mãe que existe ou existia no imaginário comum.

    Então temos que reinventar o que é ser mãe para a mulher atual. E isto ainda está em construção.

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