10 em Autoestima/ Convidadas no dia 24.11.2016

Autoestima: quando sua mãe planta erva daninha no seu jardim!

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Do Tumblr Friends Confessions

Incondicional?

Você está gorda.
Você está magra demais, parece doente.
Você é burra.
Você viu como Fulana emagreceu? Ela sim tem força de vontade.
Vê se come, parece um palito.
Para de desenhar, isso não vai te levar a lugar nenhum.
Deixa de ser burra.
Daqui a pouco até a Cicrana é mais magra que você.
Você poderia ser mais vaidosa.
Essa perna toda ralada, vai ficar horrível cheia de cicatrizes.
Barriga de fora, você nunca vai poder usar isso.
Você é largada.
Sobremesa? Para ela não.
Ela não consegue prender homem nenhum.
Você tem tudo na vida, por que não se esforça um pouco para emagrecer?
Você parece uma vaca.
Vai ficar solteira pra sempre se continuar desse jeito.

 Nada disso foi ouvido na escola ou na faculdade. Na verdade, o colégio funcionava como um santuário, refúgio ou ponto de segurança emocional do cotidiano juntamente com as aulas de inglês, ballet, sapateado, jazz, street dance, teatro, surf, vôlei de praia e tudo mais que coubesse na agenda. A humilhação não vinha dos coleguinhas que não tinham a tesoura do Mickey, que gostavam do mesmo garoto ou que não tinham sido convidadas para uma festa. Também não era por conta da calça 42, da fase grunge de All Star preto só ouvindo Nirvana, da fase surfista de acordar às 5 da manhã para pegar onda, ou por ter o cabelo cacheado num império de cabelos lisos.

A encarregada pela humilhação era a pessoa que mais deveria te proteger do mundo: sua mãe.

Para você, leitor(a), pode causar estranheza e desconforto ler sobre a possibilidade de alguém estar escrevendo algo para falar “mal” daquela pessoa que só quer o seu bem. Causa desconforto ler sobre a existência de um bullying dentro de casa. Estranheza falar sobre a possibilidade dessa pessoa ferir alguém que ela ama de forma deliberada.

Para você leitor(a) que já passou por isso, com certeza causa conforto. Um pequeno momento de alívio ao ler isso aqui e pensar “ufa, não sou só eu”. Vem de dentro um grito de alegria por alguém reconhecer e ceder um espaço para falar sobre um assunto que sempre te atormentou, mas você nunca teve coragem de falar.

Você não esta sozinha(o). Milhares de pessoas se perguntam todos os dias, por que aquela pessoa que deveria te amar acima de tudo não te aceita como você é?

Não posso dizer aqui que conheço o por quê por trás das ações de humilhação familiares, pode ser trauma próprio de infância refletindo nos filhos; o desejo de reviver uma época através da vida dos filhos; a competição com a pessoa mais jovem em uma inveja típica de madrasta da Branca-de-Neve; em alguns casos pode ser simplesmente o não saber que o que é falado afeta o outro de uma forma inimaginável. Não tenho um diploma em psicologia ou psiquiatria, não tenho uma amostragem de pessoas. Só tenho a minha experiência.

O objetivo desse texto não é conseguir nenhuma explicação ou necessariamente compreender o por quê, é uma tentativa – ainda que pequena – de tentar fazer com que esse assunto deixe de ser um tabu.

Entender que feminismo e sororidade começam dentro de casa.

É tentar fazer você, que sofre nessa situação, entender que isso não é sua culpa e que você não está só. É entender que é possível desconstruir a imagem de que a sua mãe é perfeita e de que as opiniões dela sobre a sua vida são as mais importantes. Podem não ser.

É entender, que sua mãe é um ser humano, cheio de defeitos e qualidades como qualquer um de nós, mas que esses defeitos não podem ser ignorados simplesmente por ela ser mãe. Isso não dá a ela o direito de falar tudo que passar pela sua cabeça.

Existe uma diferença considerável entre uma preocupação e uma alfinetada para magoar. Ninguém vai obrigatoriamente deixar de amar e respeitar a mãe ao diferenciar essas intenções, mas vai se tornar mais fácil a convivência se for possível compreender o objetivo daquele comentário. Será mais fácil desconsiderá-lo se a mãe dentro de nós estiver desconstruída.

Se eu não acreditar nisso, não me fará mal, é quase um mantra a ser repetido quando falamos de pessoas tóxicas. Quando essa pessoa é a sua mãe isso se torna duas vezes mais importante.

Entender que aquilo que é dito “para o seu próprio bem” pode não ser na verdade dito para te jogar para baixo é um primeiro passo. É preciso compreender que uma “verdade” como essa pode ser só a reverberação de preconceitos de gerações anteriores, pré conceitos esse que podem te fazer muito mal e afetar sua autoestima, crescimento e desenvolvimento enquanto ser humano.

Mas acima de tudo, entender que outras pessoas – mesmo a sua mãe – não podem definir quem você é. Só você pode. 

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10 Comentários

  • RESPONDER
    Priscila
    24.11.2016 às 22:59

    Incrível texto, mães narcisistas destroem vidas. Elas minam a auto estima, qq sentimento, é horrível. Existem vários grupos de ajuda no Facebook, e muitas vezes da ódio de ler o que essas mulheres fazem com suas filhas, a maioria das vítimas são mulheres, raramente acontece com os filhos homens, mas é muito difícil. E o pior é aceitar que alguém que supostamente “deveria” amar só causa sofrimento. E ainda ter que ouvir: Nossa vc está exagerando!
    Nossa mas mãe é mãe…. É bom (ou não) saber que isso é comum e não se está sozinha.

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    Gabi
    25.11.2016 às 7:41

    Ótimo, é um tabu com certeza. E é confuso porque às vezes as mães falam coisas (como aquela lista que você citou no texto) com justificativa que amam quer nosso bem. Meu gaslighting começou dentro de casa mas graças ao acesso a informação já consigo identificar algumas situações e me defender.

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    Ingrid
    26.11.2016 às 17:10

    Texto ótimo. Tema espinhoso. Tão de parabéns.

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    Lívia Nunes
    28.11.2016 às 11:17

    Perfeito! Não tenho experiência no assunto (minha mãe é maravilhosa e me acha o último copo d’água do deserto) mas já vi isso acontecer na minha família e é muito triste! Parabéns por quebrar o tabu que é esse assunto, muitas meninas devem se sentir reconfortadas! Bjs

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    Juliana
    28.11.2016 às 15:05

    Interessante o texto Bruna. Foi a primeira vez que vi alguém descrevendo na internet o problema com o qual eu sempre convivi.

    Mas definitivamente não concordo com o posicionamento de aceitar porque “é para o seu próprio bem”. Ou de relevar porque “é a sua mãe”… Sim, mães não são perfeitas e são apenas seres humanos como nós, mas é exatamente por isso que anos de humilhação e maus tratos não podem ser ignorados.

    Veja, não digo que ninguém deva desrespeitar a própria mãe, mas se eu resolver viver minha vida sem me expor diariamente à agressões verbais acho inaceitável que pessoas que nunca sofreram esse tipo de abuso digam que na verdade foi tudo “para o meu bem”. Não, não foi para o meu bem! Inclusive, me fez muito mal. E sim, eu sei que é minha mãe e é por isso que eu estou sendo super compreensiva e até me policiando para não ser desrespeitosa, mas não acho que por ser filha eu seja obrigada a virar saco de pancada.

    Bem, atualmente esse é meu posicionamento. Não acho necessário guardar rancor, mas também acho que faz mal à saúde mental ficar se forçando a conviver com alguém que te faz mal. E não, não importa a maneira como esse mal venha disfarçado nem quem o esteja praticando. Relacionamentos abusivos nunca são uma boa ideia.

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    Priscila
    05.12.2016 às 16:05

    Não acredito que não sou só eu!!! “É pro seu bem que eu falo isso” e “Não sei pq vc tem essa auto estima tão baixa” foram coisas que eu ouvi a vida toda… Hoje mantenho distância segura pra não me magoar mais, mas é uma ferida que nunca fecha e afetou toda a minha vida. Mas nunca tive coragem de enfrentá-la. Quem sabe um dia… quem sabe quando eu for mãe e mostrar pra ela que existem outras formas de educar um filho….

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    Amanda Flor
    07.12.2016 às 16:24

    Nossa, perfeito! Cresci ouvindo coisas assim e ainda ouço. Às vezes acho que a minha mãe não faz por mal, não pensa antes de falar; às vezes acho que ela sente inveja (?) de mim. Sei lá. Mas é horrível. Isso só prejudica e enfraquece a relação que deveria ser tão bonita.

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    Vilma Oliveira
    09.12.2016 às 16:40

    Incrível como expôs exatamente o que se passou comigo desde a infância! Tive que fazer muita terapia e fazer uma faculdade de psicologia para sair do lixão…
    Infelizmente a recuperação é lenta e permanente…
    Parabéns pela coragem de expor a sua vivência terrível! Beijos

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    Nanci
    14.12.2016 às 11:56

    Incrível o texto pra um tema tão difícil.
    Minha mãe de vez em quando solta algumas coisas (muito mais hoje em dia, que sou adulta). Quando era criança não falava nada parecido (ainda bem!).
    Hoje sou mãe de uma menininha de 1 ano e é mto bom ler isso para ter mais auto crítica se um dia vier algo desse tipo na minha cabeça. Sempre pensar bem antes de falar é um mantra que devemos repetir.

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    Mariana
    15.12.2016 às 14:57

    O assunto é espinhoso e dolorido, mas é maravilhoso saber que não é só com a gente.

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